1983: Immanuel WALLERSTEIN: O capitalismo histórico
A luita polo lucro
(continuaçom do pg. anterior)
Em cada caso, a hegemonia surgiu após a derrota de um pretendente à conquista militar (os Habsburgos, França, Alemanha). Cada hegemonia foi selada por umha "guerra mundial" –um conflito continental massivo e altamente destrutivo, luitas intermitentes com a duraçom de trinta anos, envolvendo todos os maiores poderes militares do seu tempo. Elas fôrom, respectivamente, a Guerra dos Trinta Anos de 1618-48, as guerras napoleónicas (1792-1815) e os conflitos do século XX, entre 1914 e 1945, os quais devem ser considerados com propriedade como umha única e prolongada "guerra mundial". Note-se que, em todos os casos, o vencedor foi a principal potência marítima do período anterior à "guerra mundial". Todavia, para vencer a guerra, tivo de se transformar numha potência terrestre, de modo a vencer umha potência continental historicamente forte, que parecia tentar transformar a economia-mundo num império-mundo.
O principal factor da vitória nom era, porém, militar, mas sim económico: a capacidade dos acumuladores de capital, sediados em determinados Estados, para vencerem todos os concorrentes, nas três principais esferas económicas: produçom agro-industrial, comércio e finanças. Especificamente, durante breves períodos, os acumuladores de capital no Estado hegemónico eram mais eficientes do que os seus concorrentes sediados noutros Estados rivais e, em conseqüência, conquistárom mercados, mesmo nas áreas "domésticas" destes últimos. Todos estes períodos hegemónicos fôrom breves. Todos tivérom um fim, o qual se deveu mais a razons económicas do que político-militares.
Em cada caso, a tripla superioridade económica desfijo-se de encontro a duas realidades inelutáveis do capitalismo. Primeiro, os factores que criavam umha maior eficiência económica podiam ser copiados por outros –nom polos concorrentes mais fracos, mas por aqueles que tinham capacidade mediana–, e os que aderiam tardiamente a um qualquer processo económico tinham a vantagem de nom terem de amortizar investimentos mais antigos. Em segundo lugar, a potência hegemónica tinha todo o interesse em manter umha actividade económica ininterrupta e, assim, tendia a adquirir a paz social, através da redistribuiçom interna. Com o tempo, isso levou a umha reduçom da sua competitividade, pondo fim à sua hegemonia. A isso acresce que as "responsabilidades" militares alargadas, terrestres e marítimas, tornárom-se um fardo económico crescente para o Estado hegemónico, que nom podia manter o nível reduzido de despesas militares do período antes da "grande guerra".
Deste modo, o equilíbrio de poder –que constrangia tanto os Estados fortes como os fracos–, nom era um epifenómeno político que pudesse ser facilmente desfeito. Estava directamente ancorado no modo como o capital era acumulado no capitalismo histórico. O equilíbrio de poder também nom decorria unicamente da relaçom entre aparelhos estatais, porque os actores internos de qualquer dos Estados actuavam regularmente para além das suas fronteiras, directamente ou por intermédio de alianças com actores noutros locais. Deste modo, na análise da política dos Estados, a distinçom interno-externo é puramente formal e nom ajuda a compreensom das luitas políticas.
Mas, de facto, quem luitava com quem? Esta nom é umha questom tam óbvia como se poderá pensar, dadas as pressons contraditórias existentes no capitalismo histórico. A luita mais elementar –e de algum modo a mais óbvia–, era a que opunha um pequeno grupo de grandes beneficiários do sistema e o grande conjunto das suas vítimas. Esta luita é conhecida por muitos nomes e sob muitas formas. Sempre que, num determinado Estado, há umha demarcaçom clara entre os acumuladores de capital e a sua força de trabalho, estamos perante aquilo a que se chama umha luita de classes entre o capital e o trabalho. Essas luitas de classes ocorrêrom em dous locais –na arena económica (tanto no local de trabalho, como no mais lato e amorfo "mercado"), e na arena política. É claro que, na arena económica, tem havido um conflito de interesses directo, lógico e imediato. Quanto maior for a remuneraçom da força de trabalho, menos mais-valia sobrará como "lucro". É claro que este conflito tem sido atenuado por consideraçons de longo prazo e de larga escala. Certos acumuladores de capital e os seus assalariados tinham interesses comuns, por oposiçom aos seus congéneres localizados algures no sistema. E, em certas circunstáncias, umha melhor remuneraçom da força de trabalho podia reverter em proveito dos acumuladores de capital como lucro diferido, por via de um acrescido poder de compra global na economia-mundo. De qualquer modo, nenguma destas consideraçons podia escamotear o facto de que a divisom de umha determinada mais-valia era umha operaçom de soma zero. Daí que, forçosamente, a tensom tenha sido contínua. Conseqüentemente, essa mesma tensom encontrou expressom continuada na competiçom polo poder político, dentro dos vários Estados.
Como sabemos, porém, o processo de acumulaçom de capital levou à sua concentraçom em certas zonas geográficas. A troca desigual que lhe estivo subjacente tornou-se possível graças à existência de um sistema interestadual hierarquizado, apesar de os aparelhos estatais manterem algum poder (limitado) para alterar as operaçons do sisterna. Considerando tudo isto, a luita entre os acumuladores mundiais de capital e a força de trabalho mundial encontrou também considerável expressom nas tentativas de vários grupos, de certos Estados mais fracos, para acederem ao poder, de modo a utilizarem o poder estatal contra acumuladores de capital sediados em Estados mais fortes. Temos designado este fenómeno como luita anti-imperialista. Sem dúvida, também aqui, a questom foi freqüentemente obscurecida polo facto de as linhas internas, de cada um dos dous Estados envolvidos, nem sempre terem coincidido perfeitamente com o subjacente alinhamento da luita de classes na economia-mundo como um todo. Alguns acumuladores de capital, no Estado mais fraco, e alguns elementos da força de trabalho, no Estado mais forte, vírom vantagens de curto prazo na definiçom dos assuntos políticos em termos puramente nacionais, e nom em termos de classe e naçom, Mas as grandes mobilizaçons e investidas de movimentos anti-imperialistas nunca teriam sido possíveis –e, portanto, mesmo os objectivos limitados eram raramente conseguidos– se, na luita , nom fosse usado, polo menos implicitamente, o conteúdo de classe, como tema ideológico.
Já assinalámos também que o processo de formaçom de grupos étnicos estivo directamente ligado a estruturaçom da força de trabalho em certos Estados, servindo como mapa de posiçons nas estruturas económicas. Assim, onde este fenómeno ocorreu de forma mais acentuada –ou onde as circunstáncias impugérom pressons agudas sobre a sobrevivência–, o conflito entre os acumuladores de capital e os segmentos mais oprimidos da força de trabalho assumiu a forma de luitas lingüístico-raciais-culturais, umha vez que estes elementos definidores estám intimamente correlacionados com a pertença a umha classe. Onde quer que isto tenha acontecido, falou-se normalmente de luitas étnicas ou nacionais. Tal como no caso das luitas anti-imperialistas, estas luitas eram geralmente mal-sucedidas, sempre que nom conseguiam mobilizar os sentimentos subjacentes a luita de classes, isto é, a luita pola apropriaçom da mais-valia produzida no seio do sistema capitalista.
Nom obstante tudo isto, se prestarmos atençom unicamente a luita de classes (polo facto de ser óbvia e fundamental), perderemos de vista umha outra luita política que, durante o capitalismo histórico, absorveu polo menos tanto tempo e energia. Referimo-nos ao facto de o sistema capitalista ter impelido todos os acumuladores de capital a luitarem uns contra os outros. umha vez que o modo de promover a incessante acumulaçom de capital consistia na obtençom de lucros, provenientes da actividade económica (contra os esforços competitivos de outros), nengum empresário individual podia ser mais do que um aliado circunstancial de qualquer outro empresário, sob pena de ser, pura e simplesmente, eliminado de cena.
Empresário contra empresário, sector económico contra sector económico, empresários de um dado Estado ou grupo étnico contra empresários de outros Estados ou etnias –a luita tem sido, por definiçom, incessante. E esta luita incessante assume constantemente umha forma política, precisamente devido ao papel central dos Estados na acumulaçom de capital. Por vezes, estas luitas dentro dos Estados tenhem-se circunscrito a questons pessoais nos aparelhos estatais e a políticas concretas de curto prazo. Outras vezes, porém, tem incidido sobre grandes questons "constitucionais" , que determinam as regras polas quais se regem as luitas de curto alcance, e, em conseqüência, a possibilidade de umha facçom adquirir ascendente sobre outra. Sempre que estas luitas fôrom de natureza "constitucional", elas requerêrom umha grande mobilizaçom ideológica. Nestes casos, ouvimos falar de "revoluçons" e "grandes reformas" , sendo atribuídos rótulos infamantes (e analiticamente inadequados) a facçom derrotada. Na medida em que as luitas políticas em prol, por exemplo, da "democracia" e da "liberdade" , contra o "feudalismo" ou a "tradiçom", nom fôrom luitas das classes trabalhadoras contra o capitalismo, fôrom entom essencialmente luitas pola acumulaçom de capital, entre acumuladores de capital. Estas luitas nom opunham umha burguesia "progressiva" a estratos reaccionários, já que eram luitas intra-burguesas.
É claro que o uso de palavras-de-ordem ideológicas "universalistas", em favor do progresso, tem sido politicamente útil –um modo de instrumentalizar a luita de classes em favor de umha das partes beligerantes nas luitas entre acumuladores. Mas tal vantagem ideológica tem sido freqüentemente umha arma de dous gumes, libertando paixons e dificultando a luita de classes. Este foi, é claro, um dos dilemas recorrentes dos acumuladores de capital no capitalismo histórico. Eles eram forçados, polo próprio funcionamento do sistema, a agir solidariamente como classe, em favor dos seus interesses e contra os esforços dos trabalhadores, mas eram também obrigados a luitar incessantemente uns contra os outros, tanto na arena económica, como na política. Isto corresponde exactamente a umha contradiçom do sistema.
Constatando a existência de luitas que, embora nom sendo luitas de classes, absorvem bastante energia política, muitos investigadores concluírom que a luita de classes comporta umha interpretaçom dúbia para a compreensom da luita política. Esta é umha inferência curiosa. Seria mais sensato concluir que essas luitas, alheias à lógica de classe, isto é, luitas entre acumuladores por vantagens políticas, comprovam a existência de umha séria fraqueza estrutural na luita de classes que estes mantenhem entre si a escala mundial. Estas luitas políticas podem ser definidas como luitas para moldar as estruturas institucionaís da economia-mundo capitalista, de modo a construir um tipo de mercado mundial cujo funcionamento favorece actores económicos particulares. O "mercado" capitalista nunca foi um dado, e muito menos umha constante. Trata-se de umha construçom que foi regularmente recriada e ajustada.
Em cada momento, o "mercado" de umha complexa interacçom dos quatro maiores grupos de instituiçons: os vários Estados, ligados num sistema inter-estatal; as várias "naçons" , as plenamente reconhecidas e as que luita vam por um tal reconhecimento público (incluindo essas sub-naçons que som os "grupos étnicos"), numha relaçom difícil e incerta com os Estados; as classes, com contornos ocupacionais evolutivos e com graus oscilantes de consciência; e, por fim, as unidades aglutinadoras de rendimento que constituem os espaços domésticos, constituídos por pessoas envolvidas em múltiplas formas de trabalho e obtendo rendimento de várias fontes, numha relaçom difícil com as classes.
Nesta constelaçom de forças institucionais, nom havia estrelas polares fixas. Nom havia entidades "prirnordiais" que tendiam a prevalecer sobre as formas institucionais suscitadas polos acumuladores de capital, em alternáncia com (e em oposiçom a) luita dos trabalhadores para resistirem a apropriaçom do seu produto económico. As fronteiras entre diferentes variantes de umha forma institucional, os "direitos" que ela podia legalmente e de facto sustentar, variavam nas diferentes zonas da economia-mundo. Se um analista escrupuloso fica confuso diante deste vortex institucional, ele pode seguir um rumo seguro lembrando-se que no capitalismo histórico os acumuladores tinham como objectivo supremo a maximizaçom da acumulaçom, e que, por conseguinte, as forcas de trabalho nom podiam ter um objectivo mais elevado do que a sua sobrevivência e o alijar da sua carga. Com isto em mente, podemos compreender razoavelmente a história política do mundo moderno.
Em particular, podemos começar a apreciar, em toda a sua complexidade, a natureza circunlocutória, freqüentemente paradoxal ou contraditória, dos movimentos anti-sistémicos, que emergírom no capitalismo histórico. Comecemos polo dilema mais elementar. O capitalismo histórico funcionou no interior de umha economia-mundo, e nom no seio de um Estado-mundo. Bem polo contrário. Como vimos, houvo pressons estruturais que militárom contra a construçom de um Estado-mundo. Dentro deste sistema, sublinhámos o papel crucial dos múltiplos Estados –as mais poderosas estruturas políticas mas, contudo, dotadas de um poder limitado. Por isso, para as forças de trabalho, a reestruturaçom de determinados Estados era a via mais promissora para melhorarem a sua posiçom, mas, simultaneamen te, umha via de valor limitado.
Convém esclarecer o que entendemos por movimento anti-sistémico. A palavra movimento implica umha acçom colectiva de natureza nom momentánea. De facto, em todos os sistemas históricos conhecidos, houvo protestos ou levantamentos espontáneos. Eles servírom de válvulas de segurança para a fúria acumulada; ou, por vezes, mais eficazmente, como mecanismos que estabelecêrom algumha escassa limitaçom ao processo de exploraçom. Geralmente, porém, a técnica da rebeliom funcionou apenas à margem da autoridade central, particularmente quando a burocracia central passava por fases de desintegraçom.
A estrutura do capitalismo histórico mudou alguns destes dados. Estando os Estados integrados num sistema inter-estatal, as rebelions e os levantamentos tinham geralmente repercussons imediatas para além dos limites da jurisdiçom política ern que ocorriam. Determinadas forças "externas" tinham fortes motivos para virem em ajuda dos aparelhos estatais ameaçados. Isto tornou as rebelions mais difíceis. Por outro lado, a intrusom dos acumuladores de capital –e, portanto, dos aparelhos estatais– na vida quatidiana dos trabalhadores foi geralmente muito mais intensa durante capitalismo histórico do que nos sistemas históricos anteriores. A incessante acumulaçom de capital conduziu a repetidas pressons para reestruturar a organizaçom (e localizaçom) do trabalho, para aumentar o montante de trabalho absoluto, e para promover a reconstruçom psicossocial das forças de trabalho. Neste sentido, para a maioria dos trabalhadores de todo o mundo, a perturbaçom, o dilaceramento e a exploraçom eram ainda maiores, Ao mesmo tempo, a disrupçom social enfraqueceu o carácter mitigador dos modos de socializaçom, No cômputo global, os motivos de rebeliom aumentárom significativamente, apesar de as suas possibilidades de êxito terem talvez diminuído.
Esta tensom suplementar conduziu a grande inovaçom na técnica de rebeliom, ocorrida durante o capitalismo histórico. Esta inovaçom consistiu no conceito de organizaçom estável. Foi, somente, no século XIX que surgírom estruturas permanentes, burocratizadas, nas suas duas grandes variantes históricas: movimentos laboral-socialistas e movimentos nacionalistas. Os dous movimentos usavam umha linguagem universalista –basicamente a da revoluçom francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. Um e outro adoptárom a ideologia do iluminismo –a inevitabilidade do progresso, isto é, da emancipaçom humana baseada em direitos humanos inatos. Um e outro apelavam ao futuro contra o passado, ao novo contra o velho, Mesmo quando a tradiçom era invocada, era-o como base para umha renascença.
Os dous tipos de movimentos tinham, é certo, objectivos diferentes e, inicialmente, localizaçons distintas, Os movimentos laboral-socialistas rentrárom-se nos conflitos que opunham os trabalhadores assalariados, urbanos e sem terra (o proletariado), aos donos das estruturas económicas em que trabalhavam (a burguesia). Estes movimentos insistiam no facto de a remuneraçom polo trabalho ser fundamentalmente inegualitária, opressiva e injusta. Era natural que tais elementos emergissem primeiro nas regions da economia-mundo onde havia umha significativa força de trabalho industrial, em particular na Europa Ocidental. Os movimentos nacionalistas centrárom-se nos conflitos entre os numerosos "povos oprimidos" (definidos em termos de características lingüísticas e/ou religiosas) e os "povos" dominantes de umha dada jurisdiçom política. Os primeiros tinham, é claro, muito menos direitos políticos do que os últimos, e também menos oportunidades económicas e formas legítimas de expressom cultural. Estes movimentos insistírom em que os "direitos" eram fundamentalmente inegualitários, opressivos e ínjustos. Era natural que tais movimentos começassem por emergir nas regions semi-periféricas da economia-mundo –como o Império Austro-Húngaro–, onde era mais evidente a distribuiçom desequilibrada dos grupos etno-nacionais na hierarquia da força de trabalho.
Em geral, até recentemente, estes dous tipos de movimentos considerárom-se muito diferentes um do outro, por vezes mesmo antagonistas. As alianças entre eles eram vistas como tácticas e temporárias, Curiosamente, porém, estes dous tipos de movimentos partilhárom desde o início certas características estruturais comuns. Em primeiro lugar, após debates consideráveis, tanto os movimentos laboral-socialistas como os nacionalistas, decidírom tornar-se organizaçons e adoptar como principal objectivo políti- co a tomada do poder estatal (mesmo quando, no caso de certos movimen- tos nacionalistas, isso implicava a criaçom de novas fronteiras estatais), Em segundo lugar, a decisom sobre a estratégia –a tomada do poder estatal– fijo com que estes movimentos mobilizassem forças populares com base numha ideologia anti-sistémica, ou seja, revolucionária. Eles eram contra o sistema existente –o capitalismo histórico–, construído com base nas desigualdades estruturantes capital-trabalho e centro-periferia, as quais estes movimentos se propunham derrubar.
Num sistema desigual, há sempre duas maneiras de um grupo subalterno procurar superar a sua condiçom. Pode tentar reestruturar o sistema, de modo a que todos tenham igual estatuto, ou pode simplesmente procurar subir de posiçom no sistema inegualitário. Como sabemos, os movimentos anti-sistémicos, por muito que tenham centrado a sua estratégia em finalidades igualitárias, incluírom sempre elementos cujo objectivo (inicial ou subseqüente) era apenas promoverem-se a si próprios dentro da hierarquia existente. Os próprios movimentos tiveram sempre consciência deste facto, mas preferiarn discutir este problema em termos de motivaçons individuais: a pureza de intençons contra os traidores à causa. Todavia, como a análise nos força a concluir que os "traidores a causa" eram omnipresentes em todas as instáncias dos movimentos, somos levados a procurar umha explicaçom estrutural e nom meramente motivacional.
A chave para o problema pode residir na decisom estratégica básica de considerar a tomada do poder estatal como o objectivo central das actividades do movimento. Esta estratégia tivo duas conseqüências fundamentais. Na fase de mobilizaçom, levou cada movimento a entrar em alianças tácticas com grupos que nom tinham nada de "anti-sistémico", com o fim de atingir os seus objectivos estratégicos. Estas alianças modificárom a estrutura dos próprios movimentos anti-sistémicos, ainda na fase de mobilizaçom. Mais importante ainda, a estratégia acabou eventualmente por ter sucesso em muitos casos. Muitos movimentos conquistárom parcialmente (ou mesmo totalmente) o poder estatal. Estes movimentos vitoriosos fôrom entom confrontados com a realidade das limitaçons do poder estatal na economia-mundo capitalista. Vírom-se entom constrangidos polo sistema inter-estatal a exercerem o seu poder de tal modo que os objectivos anti-sistémicos", que eram a sua razom de ser, ficavam diluídos.
Isto parece tam óbvio que devemos interrogar-nos sobre o que teria levado esses movimentos a basear a sua estratégia num objectivo tam ilusório. A resposta é bem simples: dada a estrutura política do capitalismo histórico, nom tinham grande escolha. Nom parecia existir urna estratégia alternativa mais promissora. A tomada do poder estatal prometia, polo menos em parte, umha mudança no equilíbrio de poder entre os grupos em contenda. Por outras palavras, a tomada do poder estatal representou umha reforma do sistema. As reformas melhorárom de facto a situaçom, mas sempre através do reforço do próprio sistema. Poderemos entom concluir que o papel dos movimentos anti-sistémicos no mundo, ao longo de mais de cento e cinqüenta anos, consistiu simplesmente no reforço do capitalismo histórico através do reformismo? Nom. E isto porque a política do capitalismo histórico é mais do que a política dos diversos Estados. Tem sido também a política do sistema inter-estatal. Os movimentos anti-sistémicos existírom desde o início nom apenas individualmente mas como um todo colectivo, embora nunca organizado burocraticamente (as várias internacionais nunca incluírom a totalidade destes movimentos). Um factor crucial na força de cada movimento tem sido sempre a existência de outros movimentos. A existência de outros movimentos tem garantido a cada um deles três tipos de apoios. O mais evidente é o apoio material. É útil, mas tem porventura um significado reduzido. O segundo tipo de apoio som as manobras de diversom. A capacidade de um qualquer Estado forte intervir contra um movimento anti-sistémico localizado, por exemplo, num Estado mais fraco, foi sempre funçom do número de questons da sua agenda política imediata. Quanto mais um determinado Estado se preocupava com um movimento anti-sistémico local, menos capacidade tinha para se ocupar de um movimento anti-sistémico distante. O terceiro e mais importante apoio está ao nível das mentalidades colectivas. Os movimentos aprendêrom com os erros e fôrom encorajados polos sucessos uns dos outros. E os esforços dos movimentos em todo o mundo afectárom o clima político global –as expectativas e a análise das possibilidades.
À medida que os movimentos cresciam em número, em história e em sucessos tácticos, pareciam mais fortes como fenómeno colectivo. E porque pareciam mais fortes eram-no efectivamente. umha maior força colectiva em todo o mundo serviu como obstáculo às tendências "revisionistas" dos movimentos instalados no poder estatal –nem mais, nem menos do que isso e, para a desestabilizaçom do capitalismo histórico, o seu efeito foi maior do que a soma dos efeitos fortificadores decorrentes da tomada do poder estatal polos sucessivos movimentos individuais.
Finalmente, um outro factor entrou em jogo. À medida que as duas variedades de movimentos anti-sistémicos se difundírom (os movimentos laboral-socialistas, a partir de alguns Estados fortes para todos os outros; os movimentos nacionalistas, a partir de algumhas zonas periféricas em todas as direcçons), a distinçom entre os dous tipos de movimentos tornou-se cada vez mais fluída. Os movimentos laboral-socialistas descobrírom que os temas nacionalistas eram centrais nos seus esforços de mobilizaçom e no exercício do poder estatal. Mas os movimentos nacionalistas descobrírom o inverso. De modo a mobilizarem e a governarem efectivamente, eles tinham que considerar os interesses dos trabalhadores por umha reestruturaçom igualitária. Quando os temas começárom a misturar-se, e as formas organizativas diferenciadas tendêrom a desaparecer ou a fundir-se numha única estrutura, a força dos movimentos anti-sistémicos –como entidade colectiva integrada mundialmente– aumentou dramaticamente.
Umha das forças dos movimentos anti-sistémicos reside no facto de terem acedido ao poder num largo número de Estados. Isto modificou a política corrente do sistema-mundo. Mas esta força tem também sido umha fraqueza, já que os chamados regimes pós-revolucionários continuárom a funcionar como parte integrante na divisom social do trabalho do capitalismo histórico, Operárom assim, voluntariamente ou nom, sob a irresistível pressom para a incessante acumulaçom de capitaI. As conseqüências políticas fôrom, internamente, a continuaçom da exploraçom da força de trabalho, mesmo se de umha forma atenuada e melhorada em muitos casos. Isto conduziu a tensons internas paralelas aquelas que se encontram em Estados que nom som "pós-revolucionários", criando condiçons para a emergência de novos movimentos anti-sistémicos. A luita polo benefício económico tem sido constante, tanto nestes Estados pós-revolucionários como em todo o lado, porque no seio da economia-mundo capitalista os imperativos da acumulaçom operárom em todo o sistema. As mudanças na estrutura dos Estados alterárom a política de acumulaçom, mas nom fôrom ainda capazes de lhe por fim.
No início deste capítulo, adiamos a resposta a umha questom: quam reais fôrom os benefícios do capítalismo histórico? Quam consideráveis fôrom as melhorias na qualidade de vida? Parece agora claro que nom há umha resposta simples. "Para quem?", devemos perguntar. O capitalismo histórico permitiu umha monumental criaçom de bens materiais, mas também umha enorme polarizaçom das recompensas. Muitos beneficiárom enormemente, mas muitos mais conhecêrom umha substancial reduçom do seu rendimento real e da sua qualidade de vida. A polarizaçom foi também, é claro, espacial e, precisamente por isso, há a ilusom de nom ter ocorrido em certas áreas. A geografia dos benefícios tem sofrido alteraçons freqüentes, disfarçando assim a verdadeira natureza da polarizaçom. Mas em todo o espaço-tempo do capitalismo histórico, a incessante acumulaçom de capital significou um incessante alargamento deste fosso efectivo.